
O acarajé é uma iguaria da culinária baiana e tem sua origem nos barracões de candomblé. O bolinho de feijão-fradinho, frito no azeite de dendê, é uma oferenda à Orixá Iansã. Em Salvador - BA é facilmente encontrado nas ruas, vendido em tabuleiros pelas tradicionais Baianas, com suas roupas brancas, torço (turbante) na cabeça e suas Guias (colares) no pescoço. Essa tradição perdura desde o século XIX. O acarajé começou a ser vendido nas ruas de Salvador pelas escravas, e hoje se tornou o prato mais conhecido e característico da Bahia, e o ofício das baianas do acarajé foi tombado pelo IPHAN, desde 2004, como patrimônio imaterial do Brasil.
Na África, ele chama-se akara, e quando as escravas desfilavam pelas ruas, com os tabuleiros na cabeça, anunciavam akará ajeum. Ajeum significa, em Ioruba, comer. Nós brasileiros juntamos as duas palavras e nasceu o termo acarajé.
Bom o fato é que mesmo com tanta tradição cultural e religiosa envolvida, anda acontecendo algo no mínimo absurdo. Evangélicos produzindo e comercializando o acarajé e chamando-o de Bolinho de Jesus.
Começou quando algumas adeptas do Candomblé se tornaram protestantes, e hoje vários evangélicos se utilizam deste procedimento para ter garantida sua fonte de renda.
Estes, naturalmente, não usam as roupas brancas, nem o torço e nem as guias. Nem mesmo usam os tabuleiros para acomodar os acarajés, fazem de tudo para desassociar o quitute do Candomblé. Ignoram, no sentido de não se importarem, as origens, a história, a tradição e a cultura que envolve o que antes de tudo é uma oferenda, e querem vendê-lo apenas como um alimento qualquer. É que vende bem, muito bem. Então se apropriam indevidamente de uma das mais enraizadas e conhecidas tradições da Bahia e do Brasil, pois quem nunca ouviu falar no famoso acarajé da Bahia?
Fiquei pensando muito nisso, e acabei associando a outro fato semelhante. Todos sabem que sal grosso, arruda, fitinha vermelha, e por ai a fora, são elementos tradicionais dos cultos afro-brasileiros, principalmente da Umbanda, que se popularizaram e foram incorporados na cultura brasileira, assim como o famoso vaso de 7 ervas, ferradura, figa e muitos outros. Pois bem, não é difícil ligarmos a televisão e vermos um pastor evangélico, de roupa branca (tai outra coisa), utilizando alguns destes elementos em seu culto, e ainda denominando isso de “descarrego” (tai mais outra coisa).
É inegável a contribuição do Povo Negro e do Povo de Santo para a construção da identidade cultural do Brasil, mas àqueles que não encaram desta forma devem ao menos não tentar roubar, adaptando de forma grosseira, nossas coisas para as suas coisas.
O acarajé, alem do feijão e do dendê, tem muito sangue e suor dos escravos. Tem muita reza e axé dos barracões de Candomblé. Tem dança e tem ritmo. Tem sonhos de liberdade e sorrisos de esperança.
O acarajé é de Iansã.
O autor, Ricardo Barreira, é presidente do Instituto Sócio Cultural Umbanda Fest.
PUBLICADO NO JORNAL DA CIDADE
6 comentários:
Excelente artigo. Inteligente, crítico e de fácil entendimento. Os maiores líderes da história da humanidade sempre se destacaram pela defesa dos direitos de seu povo. Assim é você, sempre atento e lutando verdadeiramente pelas religiões afro-brasileiras. Oxalá tivéssemos 10 Ricardos Barreira no mundo. Parabéns companheiro. Você me deixa realmente feliz com seu trabalho.
Eu adorei!!!!
Infelizmente é a pura realidade Ricardo.
Cheguei na última segunda de Salvador e constatei isso, e por incrível que possa parecer, me lembrei de você na hora. Grande foi minha surpresa em abrir o Jornal (de segunda) na terça-feira buscando me atualizar das notícias da minha cidade e me deparei com seu artigo. Dei risada sozinho, porque assim que vi as tais baianas evangélicas pensei: "Nossa, o Ricardo ia querer morrer com isso"..rs
Mas nem deu tempo de eu te avisar, você já estava inteirado. Grande abraço!!!
Sou evangélica a 42 anos, ou seja, desde que nasci. Me assusta ver o que está acontecendo com os evangélicos hoje em dia, principalmente os "novos evangélicos". Ricardo está certo quando se mostra indignado com a tentativa de "roubo" da identidade cultural de elementos tradicionalmente de religiões afro-brasileiras. Lembro-me de meu pai que era pastor, severo na doutrina. Ele, assim como muitos na época, eram terminantemente contra a Umbanda e o Candomblé. Os grupos evangélicos tradicionais eram muito mais preconceituosos, mas não se utilizavam de nada destas religiões, diferente do que acontece agora, não é Ricardo?
Bom, não consegui ficar sem me manifestar diante de tão brilhante artigo. Brilhante não apenas pela forma que foi escrito, mas pela percepção, pelo olhar crítico e principalmente pela natureza de resistência e luta em defesa de um povo.O Acarajé é mesmo, sem dúvida alguma, de Iansã.
Parabéns ao Jornal da Cidade que mais uma vez se mostrou democrático.
Parabéns ao Ricardo Barreira por todo trabalho que desenvolve com amor e convicção, e pelo pouco que vi em sua página na internet, com verdadeiro heroísmo.
Admiro muito isso.
Ricardo amigo,
Parabéns pelo lindo trabalho que vem fazendo!
Passear por este blog foi uma delícia! Continue fazendo tudo assim, com otimismo, amor, dedicação e respeito! Obrigada por tudo e conte sempre comigo!
Um grande beijo
Ai, que LINDO!!!!! Nossa me emocionei, de verdade!! É por isso que você é admirado por tantas pessoas, por ter Coragem para defender a nossa cultura, a nossa raiz, a nossa religiosidade. E, se você tem milhares de fãs, de seguidores, de pessoas que te admiram e que te amam, mesmo nunca tendo te conhecido pessoalmente é exatamente por isso, por essa pessoa mais do que especial que você é. Te desejo todas as coisas boas do mundo e, não é exagero! Parabéns! Muitos beijos!!!!
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